O filme The Living End, de Gregg Araki é hoje editado em DVD no mercado português pela Zon Lusomundo. Com o título Viver até ao Fim, o filme será apresentado pelas 17h00 na Sala Buondi.Wednesday, September 23, 2009
Filme de Gregg Araki
lançado em DVD na Sala Buondi
O filme The Living End, de Gregg Araki é hoje editado em DVD no mercado português pela Zon Lusomundo. Com o título Viver até ao Fim, o filme será apresentado pelas 17h00 na Sala Buondi.Tuesday, September 22, 2009
Lançamento de 'The Celuloid Closet'
em DVD hoje pelas 17h00
O documentário The Celuloid Closet, sobre a histórias das representações de figuras gay, lésbicas, bissexuais e transgender no cinema chega hoje ao DVD em Portugal, em edição pela Midas Filmes. O lançamento tem lugar na Sala Buondi, hoje, pelas 17h00.Monday, September 21, 2009
Lançamento do DVD
'Fora da Lei'
hoje às 17h00
Sunday, April 5, 2009
'Os Tempos de Harvey Milk'
de Rob Epstein e Richard Schmiechen
Cinema São Jorge, Sala 1
Lançamento em DVD e Exibição de Os Tempos de Harvey Milk, de Rob Epstein e Richard Schmiechen
A Midas Filmes vai lançar em DVD o documentário Os Tempos de Harvey Milk, de Rob Epstein e Richard Schmiechen, na quarta-feira, dia 15 de Abril, às 21h30, no Cinema São Jorge (Sala 1), lançamento a que se seguirá uma sessão única do filme premiado com o Óscar de Melhor Documentário em 1984. Esta sessão conta com o apoio do Queer Lisboa – Festival de Cinema Gay e Lésbico de Lisboa, da Associação Cultural Janela Indiscreta, e da EGEAC, E.E.M.
A seguir à sessão, haverá música no foyer do Cinema e serão apresentados alguns excertos dos extras do DVD. A selecção musical, da responsabilidade de Nuno Galopim, vai evocar a contribuição da cidade de São Francisco, em finais dos anos 70, para o desenvolvimento do hi-nrg (ler high energy), uma importante derivação do disco sound que depois ganhou expressão na pop de inícios de 80 e que, na presente década, voltou a cativar a atenção dos entusiastas da música de dança. Das memórias fundadoras de Patrick Cowley e Sylvester ao presente com Lindstrom, passando por herdeiros vários, dos Pet Shop Boys a Divine, dos Dead Or Alive aos Bronski Beat, dos New Order a Evelyn Thomas.
Bilhetes à Venda a Partir de 13 de Abril na Bilheteira do Cinema São Jorge (lotação limitada)
Preço Único: 3€
Friday, June 13, 2008
'20,13' de Joaquim Leitão em DVD
Chegou ao mercado nacional de DVD o mais recente filme de Joaquim Leitão. O título 20.13 decorre da passagem do Levítico na qual se condena o comportamento homossexual e que tem directa projecção numa narrativa projectada em cenário moçambicano, em plena Guerra Colonial, em 1969. Em vésperas de Natal, uma patrulha regressa ao aquartelamento com um prisionei
ro. Da cidade chega na mesma tarde a mulher do capitão. A trégua habitualmente respeitada em noite de consoada não se verifica para surpresa de todos. E o espectáculo criado entre soldados, para soldados, e onde participa a mulher do médico militar acaba a meio... O tumulto do inesperado ataque nocturno é, contudo, apenas um dos acontecimentos violentos de uma noite que não deixa ninguém indiferente. E que traz à superfície alguns segredos e silêncios que a rotina de um posto perdido no meio do mato parecia até então conseguir esconder...Com actores como Marco d’Almeida, Adriano Carvalho, Carla Chambel, Maya Booth, Ivo Canelas ou o ex-D’Zrt Angélico Vieira, 20.13 teve estreia em sala em finais de 2006. A edição em DVD acrescenta agora ao filme alguns extras, nomeadamente um making of, cenas cortadas e um videoclip da canção Ele e Ela.
Sunday, March 23, 2008
Em Paris...
Chega esta semana ao mercado nacional de DVD o filme As Canções de Amor, do realizador Christophe Honoré (o mesmo de Em Paris e A Minha Mãe). É um musical. Mas não apenas um musical. É um filme dramático, no qual o recurso à canção não surge por mero dispositivo de deleite estético, mas para, de outra forma, sublinhar a intensidade de certos instantes. A voz cantada, por vezes, escuta-se com outra atenção... Atenção que não faltou aos espectadores em sala, nem aos pares de Honoré no cinema francês, tanto que o filme venceu o César deste ano para Melhor Banda Sonora. Nota portanto para uma das características da edição em DVD de As Canções de Amor que, além da galeria de extras (entrevista em Lisboa com Garrel e Honoré e imagens de um jantar com o realizador e elenco) apresenta um CD adicional com a banda sonora.
As canções que escutamos neste filme, muitas delas, surgiram em 2005 no álbum Garçon d’Honeur, o primeiro de músico francês Alex Beaupain, cantautor de afinidades com nomes recentes da nova canção (pop) francesa de travo alternativo e algumas traduziam já então o sentido de perda da morte, recente, da namorada do músico. Amigo de longa data de Honoré, e para quem compôs e gravou a canção da marcante cena do telefonema no final de Dans Paris, Beaupain transportou parte da sua experiência pessoal e as suas canções para a história que aqui se apresenta, ao lote de Garçon d’Honeur juntando outras expressamente compostas para determinadas sequências do filme. Com carga narrativa e cantadas pelas vozes dos próprios actores (Louis Garrel, Chiara Mastroiani, Ludivine Sagnier ou Gregoire LePrince Ringuet), as canções são, contudo, apenas um dos argumentos em favor deste assombroso feito de cinema. Como no seu filme anterior, Honoré olha a cidade, usa-a não apenas como cenário mas também como contexto de espaço e tempo onde a história acontece. São evidentes as marcas de admiração cinéfila pelo cinema de Demy, e também claras as heranças da Nouvelle Vague. Mas, filme a filme, Christophe Honoré vai desenvolvendo uma linguagem.Por linhas curtas, esta é a história de várias relações na Paris de hoje. Isamaël (Garrel) trabalha num jornal, a horas desencontradas com tudo e todos, inclusivamente Julie (Sagnier) com quem vive uma relação a três, o terceiro elemento sendo uma sua amiga e colega de trabalho... Um acontecimento súbito baralha os peões do jogo. E novas ligações e relacionamentos acabam por se desenhar e evoluir, muitos ao sabor do inesperado... Uma perda, um novo amor, uma outra sexualidade. Entre canções, histórias de figuras de carne e osso, seguras na sua caracterização, fortes ingredientes para um dos melhores melodramas dos últimos anos. – N.G.
Tuesday, March 18, 2008
Histórias de Nova Iorque
Conhece edição em DVD entre nós um dos filmes mais premiados em festivais de cinema gay e lésbico da presente década, brindado também com o Grande Prémio do Júri, em Sundance, em 2004. Trata-se de De Irmão Para Irmão (no original Brother To Brother), escrito e realizado por Rodney Evans, e que representa mais que apenas uma narrativa de temática gay, um olhar sobre um movimento cultural que abalou as estruturas morais da América negra dos anos 20.
O filme divide o protagonismo entre duas figuras de gerações distintas, mas com interesses e alguns traços característicos em comum. É-nos primeiramente apresentado Perry Williams (Anthony Mackie), um estudante de artes que vive na Brooklyn de finais dos anos 80. Frequenta uma cadeira que discute a identidade cultural e política afro-americana, e toma como exemplo para outras formas de discriminação entre os discriminados a memória da escrita de Bruce Nugent, poeta e pintor com papel determinante na Harlem Renaissence (movimento artístico que gerou polémica entre a comunidade negra nova-iorquina de 1919 até meados dos anos 30) e que, em 1926, publicou o primeiro conto escrito por um negro americano usando personagens explicitamente homossexuais. Relegando para segundo plano a vida pessoal do estudante (a expulsão de casa dos pais, as suas relações de amizade e a frustrada demanda pelo amor), o filme ganha fôlego quando a vida de Perry se cruza com a de Bruce Nugent, agora um idoso sem-abrigo. O admirador e o admirado trocam ideias. Bruce (Larry Gilliard Jr) partilha memórias, encontrando assim a narrativa pontes entre dois tempos, o do presente, onde as palavras se trocam e a acção flui e o do passado, onde a memória, com a patine do preto e branco, recorda como, por vezes, só a capacidade de sonhar dos artistas rompe fileiras para dar visibilidade a vozes menos capazes de se fazer escutar. Imagens reais da Nova Iorque negra dos anos 20 cruzam este constante diálogo entre o antes e o agora, conseguindo o realizador nunca largar as rédeas de uma história que, apesar de viver sobretudo de uma evocação, sabe que tem personagens no presente sem as quais o lembrar da memória seria inconsequente.
Monday, March 10, 2008
Sexo, drogas e rock'n'roll
Baseado no romance homónimo de Brian Aldiss (Brothers Of The Head, originalmente publicado em 1977), Até Que A Morte Os Separe, realizado em 2005 pela dupla de realizadores Keith Fulton e Louis Pepe passou ao lado das atenções quando, em finais de 2007, chegou ao circuito português de DVD. Na essência, este é um filme sobre cultura rock’n’roll, com acção projectada na Inglaterra de meados de 70, em tempo de revolução de hábitos e sons, via. Mais ainda, o filme nasce próximo da linguagem do documentário, apresentando-se como um “mockumentary” (um documentário ficcionado), propondo-nos assim uma ideia de filme dentro de um filme. No centro da acção estão Tom e Barry, uma dupla de irmãos siameses, ligados pela barriga que, dotados de invulgares talentos musicais, são alvo da atenção de um ambicioso e oportunista agente que rapidamente os transforma em Bang Bang, a banda tornando-se uma emergente sensação da cena pop/rock de então, até que algo corre mal...Não se trata de um filme explicitamente gay, mas em Até Que A Morte os Separe, a questão da(s) sexualudade(s) é quase tão central quanto a trama musical que define a história. O relacionamento dos irmãos é, então, o ponto de partida para toda a história, a sua sexualidade emergindo distinta quando um deles se envolve com uma jornalista que procura fazer uma reportagem sobre a banda e, mais tarde, numa festa, vemos o outro pontualmente envolvido com um homem. A eventual homossexualidade de Tom nasceu no trabalho de adaptação do romance, não fazendo portanto parte do quadro de ideias do romance de Aldiss no qual, de resto, se explora a tomada de consciência de uma terceira identidade, também siamesa, ligada aos gémeos. Uma reflexão sobre a inevitabilidade de uma ligação permanente, com condimentação de sexo, drogas e rock’n’roll, Até Que A Morte os Separe revela cuidado na construção não só da narrativa como do contexto. Aqui, de resto, ao sugerir os Bang Bang como um eventual elo perdido entre o proto-punk nova iorquino, o glam rock britânico e o punk na terra de Sua Majestade, o filme acaba por se revelar um dos mais curiosos exemplos de ficção sobre cultura rock’n’roll que o cinema conheceu na presente década.
A muito recente edição portuguesa de Até Que a Morte os Separe em DVD, assegurada pela Lusomundo, junta ao filme uma pequena selecção de extras, entre os quais um extenso conjunto de entrevistas (com os realizadores, argumentista, autor da música e actores), 11 minutos de imagens da rodagem do filme (revelando, por exemplo, o laborioso trabalho de caracterização dos dois irmãos actores ou uma momento de filmagens de concerto ao vivo) e um curto documentário que sistematiza e arruma ideias centrais sobre o filme.
Tuesday, February 19, 2008
Sonhos na cidade
Primeira longa-metragem do realizador irlandês David Gleeson, Vaqueiros e Anjos (no original Cowboys and Angels, esterado em 2003) foi presença regular no circuito de festivais de cinema queer entre 2004 e 2005. O filme centra a acção em Limerick, a cidade natal do realizador e nas vidas de dois rapazes, nos seus vinte e poucos, antigos colegas de escola (mas praticamente desconhecidos entre si) que, vindos da província, e para poder pagar a renda, acabam inesperadamente a partilhar um apartamento. Shane (Michael Legge) abdicou de um sonho em Belas Artes e é apático funcionário do Ministério da Agricultura. Vincent (Allen Leech), o seu entusiamado companheiro de apartamento, está a acabar o curso de design de moda e sonha com futura vida profissional em Nova Iorque. Shane tenta chamar a atenção das raparigas, sem sucesso. Vincent, a quem Shane rapidamente pergunta se é gay (ao que este responde afirmamente), decide mudar a imagem do amigo, começando pelo cabelo, logo depois a roupa. Uma história paralela, que envolve um traficante de drogas que mora no mesmo prédio, dá tempero agitado a uma história que, sobretudo, explora o poder da amizade. A realização é linear (e de claro apelo mainstream), o argumento flui sem sobressaltos, com pontuais instantes de tensão, outros de humor. Distante do melhor cinema queer actual, é certo, Vaqueiros e Anjos oferece uma tranquila proposta de narrativa ligeira.
A edição em DVD de Vaqueiros e Anjos é assegurada pela Pride Films, que recentemente começou a operar em Portugal e conta já com uma série de lançamentos no nosso mercado. O menu de extras é limitado apenas à apresentação de trailers de outros lançamentos desta mesma editora. Som apenas em formato 2:1.Wednesday, January 30, 2008
Mais um conto de Verão
Passou discretamente pelo circuito dos festivais de cinema independente entre 2006 e 2007 e conheceu estreia comercial em poucos países. Entre nós teve edição directa em DVD. Visibilidade injustificadamente reduzida para um filme que, contudo, pode agora para muitos ser uma verdadeira surpresa. Trata-se de O Homem da Sua Vida (no original L’Homme de Sa Vie), sexta experiência na realização da francesa Zabou Breitman, para muitos mais conhecida pelo seu trabalho como actriz.Plasticamente sedutor, aproveitando as cores quentes, a luz intensa, as formas tranquilas e o ritmo lento da paisagem do Verão rural francês (que recentemente vimos ser igualmente marcante em filmes como Un Jour D’Eté, de Franck Guerin, exibido no Queer Lisboa 11, ou em Le Dernier des Fous, de Laurent Achard), O Homem da Sua Vida assenta num jogo de emoções, mais sentidas que claramente expressas, entre dois vizinhos, outrora estranhos. Um deles, Frederic, está ali de férias com a mulher, filho, avó, irmã, primos, amigos, numa casa de campo onde mesmo assim não falta espaço para tanta gente. O outro, Hugo, um designer gráfico que pode ali trabalhar todo o ano, consequência da era da comunicação digital, mora só numa casa que seria o sonho da Wallpaper. A família convida uma noite o vizinho designer para um jantar. E este deixa logo claro, entre as conversas cruzadas, os pratos e os copos, a sua homossexualidade. O que parecia estratégia de choque acaba, após o embate da revelação, tão assimilado como o jantar. Fréderic (interpretado por Bernard Campan) e Hugo (Charles Berling) são, ao fim do serão, os resistentes de uma noite que a conversa não quer que termine. Uma conversa fragmentada que deixa imediatamente claro haver entre ambos uma radicalmente distinta visão do amor e das relações amorosas, o primeiro sublinhando a importância da vida conjunta e da partilha, o segundo vincando nas suas palavras uma tese que não acredita num amor que não o físico, momentâneo e pontual.
Esta conversa, que vamos descobrindo, aos poucos, ao longo do filme, acaba por se revelar fulcral no desencadear dos acontecimentos desse Verão. Enquanto espectadores somamos episódios, assistindo à progressiva degradação da relação (outrora intensa e viva) de Fréderic com a sua mulher, esta denunciando em manifestações de ansiedade e mesmo desespero o fosso que se alarga, compreendendo gradualmente a sua causa. Ao mesmo tempo a ligação entre Fréderic e Hugo cresce inversamente proporcional, lançando dúvidas, hipotéticas respostas e evidente desejo... Estados emocionais que a realizadora opta por aglomerar como se de um poema filmado o filme se tratasse, entrecruzando por vezes a narrativa com imagens que ultrapassam o sentido de realismo com que a história central da trama é contada. Planos de um quarteto de cordas em performance (num bouquet de referências por onde passam peças de Philip Glass), olhares, paisagens, são elementos que aprofundam o sentido de debate interior numa história de descoberta que se revela de forma nada vulgar e que fazem deste filme uma experiência tão visualmente sedutora como narrativamente cativante. – N.G.
Sunday, January 27, 2008
Loucuras do dia a dia
Baseado em Running With Scissors, o controverso livro, alegadamente autobiográfico, de Augusten Burroughs, publicado em Portugal pela Bico de Pena como Correr com Tesouras, Recortes da Minha Vida (Running With Scissors no original) é, apesar de relativamente recente (estreia nos EUA em 2006), uma pérola esquecida do cinema vivencial contemporâneo. E tem, agora, edição em DVD entre nós. Com argumento adaptado, produção e realização de Ryan Murphy, o filme conta com um elenco no qual se destacam, entre outras, as presenças de Annette Benning, Joseph Fiennes, Alec Baldwin ou Gyneth Paltrow. Antes de mais recorde-se a polémica levantada pelo livro, originalmente publicado como uma memória. Muitos dos citados levantaram-se contra declarações e situações referidas, denunciando-as como abusivas, mesmo falsas. O autor chegou a anuir, num encontro para compensação de perdas e danos, tratar-se de uma história essencialmente ficcional. O que não o impediu de, pouco depois, voltar a sublinhar o carácter biográfico da escrita...No filme, que em pontos ocasionais se destaca do livro, conhecemos a história de Augusten Burroughrs (interpretado aqui por Joseph Cross), um jovem filho de uma mulher perturbada que sonha ser um dia uma poetisa reconhecida e que, a dada altura, opta por deixar o filho, então com 12 anos, na estranha casa da família de Dr. Finch, o seu psiquiatra. Num pequeno mundo, no qual é difícil perceber se há sãos entre tantos loucos (a começar pelo médico), Augusten vive a sua adolescência. Infeliz. E regista, num diário, as situações pelas quais passa nessa excêntrica mansão na qual a árvore de Natal fica montada o ano inteiro e não faltam comprimidos para males da alma e onde encontra um novo conceito de família e um novo modo de vida, que cedo o leva a rejeitar a escola. É também aí que ocorre o despertar da sua sexualidade, numa relação com um homem mais velho que, como em tudo entre os Finch, se revela longe de seguir os caminhos mais esperados... Cortante paródia ao protagonismo do “psicologês” nas vidas contemporâneas, Recortes da Minha Vida cruza as linguagens da comédia com uma narrativa central dramática, o bizarro e o insólito deixando-nos frequentemente perdidos entre a gargalhada e mais um pólo de séria reflexão. Como explica depois o realizador num dos extras, esta é uma história onde não há bons nem maus. Todas as personagens têm um pouco dos dois extremos, instáveis, surpreendentes por vezes. Tão reais que parecem de ficção... De certa forma próximo de outros retratos, fragmentados, da vida comum que, nos últimos anos, encontrámos em filmes como Beleza Americana (Sam Mendes, 1999) ou Happy Endings (Don Roos, 2006), Recortes da Minha Vida é filme a resgatar, quanto antes, ao anonimato a que parece votado. – N.G.
Friday, January 25, 2008
Um casamento em tudo inesperado
Uma incursão do cinema mainstream, em registo de comédia, pelos universos da cultura queer, Declaro-vos Marido e... Marido (no original I Now Pronounce You Chuck and Larry) revela-se mais que apenas uma colecção de gags para gargalhadas fáceis. Na verdade, esta é uma história de feitiços virados contra os feiticeiros, revelando a “outra” face de uma medalha a dois homens que começam por simular um casamento gay para resolver questões financeiras e acabam feitos inesperados ícones da sua comunidade.No centro da acção estão Chuck (Adam Sandler) e Larry (Kevin James), dois bombeiros de Brooklyn (Nova Iorque), o primeiro um incansável mulherengo, o segundo, viúvo e pai de dois filhos, a braços com sérias complicações financeiras. Como solução para os problemas, Larry desafia Chuck a simularem uma união gay. O caso rapidamente chega a um departamento local que averigua da veracidade destas situações. Ou, como diz a dada altura o inspector (interpretado por Steve Buscemi), não esteve a comunidade LGBT a lutar pelos seus direitos anos a fio para, agora, outros se aproveitarem, indevidamente, de certas conquistas. Chuck e Larry têm, a todo o custo, de provar que são mesmo um casal gay... E é aí que o filme descola, num desfile (por vezes hilariante) dos mais estafados clichés, que parodia... Nem falta uma festa ao som de Abba e Pet Shop Boys... Neste processo entra em cena o já referido reverso da medalha. Ou seja, integrados na comunidade a que fingem pertencer, Chuck e Larry conhecem então atitudes discriminatórias e, claramente, situações de homofobia. E é aí que o realizador Dennis Duncan consegue fazer de Declaro-vos Marido e... Marido mais que apenas uma inócua comédia de domingo à tarde. É curiosa a relação da evolução da história com os filhos de Larry, ela dada aos desportos, ele ao showbiz, que não estranham em nada a entrada do tio Chuck nas suas vidas de forma mais permanente. A troca de papéis dos protagonistas lança ainda outros debates, nada subliminares, expõe comportamentos, desmonta-os inclusivamente. Consequência da “revelação” do casamento (entretanto forjado no Canadá), Chuck e Larry viram ícones da comunidade LGBT local, reconquistam os colegas de trabalho, apesar de nunca demoverem as suspeitas do chefe do batalhão (Dan Akroyd). A complicar tudo, mais ainda, vemos o despertar da paixão de Chuck pela advogada que os defende...
A edição nacional de Declaro-vos Marido e Marido (pela Universal) inclui uma vasta galeria de extras. São hilariantes os bloopers, sobretudo os que envolvem o actor Rob Schneider. As cenas cortadas, com comentários do realizador, revelam dados adicionais à história (nomeadamente a aceitação tranquila das revelações do filho pelos pais de Chuck). Sandler e James comentam grande parte dos extras, num deles referindo, um a um, os actores, amigos e músicos que desafiaram para participar no filme. Num pequeno documentário explica-se ainda o trabalho de duplos na construção de uma cena arriscada. Num outro vemos como o realizador experimenta as situações em que coloca os seus actores antes de dada a ordem para filmar.Sunday, January 13, 2008
Pode alguém ser quem não é?
Acaba de ser editado entre nós, em DVD, pela Pride Films, o filme Hard Pill (EUA, 2005) – com o título em português Dura Pílula -, longa-metragem de estreia de John Baumgartner, que integrou a competição de longas-metragens da décima edição do Festival de Cinema Gay e Lésbico de Lisboa, em 2006.
Num registo de comédia dramática, John Baumgartner usa a vida mundana de um trintão norte-americano desencantado para lançar um interessante debate do foro ético: a “cura” da homossexualidade. Tim (Jonathan Slavin) é o protagonista. Aos 33 anos o seu perfil mostra um homem de vida profissional rotineira, com pouca sorte no amor, avesso às lógicas do corpo e do engate rápido que descreve como “moeda corrente” no mundo gay que conhece, encantado com um “amigo” “hetero” com quem passa ocasionais serões mornos. Tim tem, de resto, uma história antiga de atracções pelos homens “errados”... E um novo colega de trabalho acaba por revelar-se a gota de água... Apesar da atenção de amigos, com quem partilha o local de trabalho, a solidão ensurdece-o. A ponto de se oferecer, como cobaia, a testes de um novo fármaco que promete “curar” a homossexualidade.É aí que o filme ganha corpo. Usando imagens que simulam vox populi, escutamos posições da sociedade face a esta nova pílula, dos que a entendem como forma de genocídio aos que a assinalam como forma de devolver as pessoas ao “normal”. Apesar da aparente neutralidade perante os depoimentos (todos eles de ficção, naturalmente), o filme toma evidente partido. Através das reacções dos amigos, de fracassados casos com mulheres que entretanto ganham forma e da constatação, afinal, que essa não era, nem pode ser, a solução, John Baumgartner usa Hard Pill como parábola contra a eventuais tentativas de “normalização” do que há de mais vivo em cada ser humano: a sua personalidade, as suas opções. No fundo, a sua identidade.
Narrativamente interessante, mostrando o realizador sabendo usar uma montagem em paralelo para alargar a nossa capacidade de observar o mundo em redor do protagonista, Hard Pill não se afasta contudo dos códigos habituais no telefilme, talvez assim assegurando a solidez final de uma boa ideia com orçamento que se adivinha longe de patamares de sonho. Apesar da intensidade emocional de alguns momentos vividos na história e, sobretudo, do sério debate que o filme levanta, Hard Pill recorre a pontuais dispositivos de humor, servindo ocasionais janelas de comic relief... Sobretudo na mordaz forma como acaba por criticar-se semelhante ideia de duvidosa farmacologia. – N.G.
Tuesday, January 1, 2008
'Mysterious Skin' de Gregg Araki
com edição nacional em DVD
Mysterious Skin - Pele Misteriosa assinala a primeira experiência com grandes meios de produção para o realizador Gregg Araki, uma das mais destacadas figuras do chamado new queer cinema. Estreado em 2005, chegou às nossas salas no Verão de 2007 e, agora, surge em DVD numa edição simples, sem extras.
Esta é, a traços largos, a história de dois rapazes com raízes numa mesma pequena cidade remota no interior dos EUA. O reencontro, no presente, coloca juntas duas vidas separadas desde a infância, na sequência de um incidente que moldaria as vidas de ambos. Abusados, cada qual interioriza o choque traumático à sua maneira. Brian (interpretado por Brady Corbet, que brevemente veremos numa nova versão de Funny Games, de Michael Haneke), que sofreu uma “branca” na memória, recordando apenas o retomar dos sentidos na cave de sua casa, a sangrar do nariz, pensa que foi raptado por extraterrestres. Nick (soberba interpretação do promissor Joseph Gordon-Levitt, que em 2006 um ano vimos em Brick, de Rian Johnson), por seu lado, cresceu seguro, popular, rebelde, saudável. Mas assombrado por uma dúvida: o que é o amor? Dúvida cuja resposta vai tentar encontrar em Nova Iorque. Separados, um procura respostas nas estrelas, enquanto o outro chega a experimentar encontros (que não os do terceiro grau) com os homens que lhe aparecem pela frente. Um amigo comum vai juntar os seus caminhos e, do reencontro, afinal, resposta que, na verdade, já esperavam...Neste filme, Gregg Araki aborda com evidente cautela gráfica as sequências que ilustram a memória remota dois rapazes. Nesse aspecto, o filme é, como Araki definiu à altura da sua estreia, “muito discreto”, sublinhando opções que privilegiaram "os pontos de vista subjectivos" das personagens centrais.
O filme é baseado no primeiro romance do escritor norte-americano Scott Heim, que Araki leu no ano da sua edição (1996). Começou então por trabalhar uma primeira proposta para uma possível eventual adaptação para o cinema, submetendo-a ao atelier de desenvolvimento de argumentos do Festival de Sundance. Nada aconteceu. Em 2003, depois de um grupo de teatro de São Francisco ter adaptado o texto original para uma produção que lhe deu alguma visibilidade, Gregg Araki, retoma o velho projecto, e escreve ele mesmo o argumento. Fala com o escritor, procurando consentimento para integrar no filme algum do lirismo do romance e restituir a proximidade com a sua fonte original.
Nota final para a soberba banda sonora, resultado de uma parceria entre Harold Budd e o ex-Cocteau Twins Robin Guthrie, que encetou um relacionamento profissional entre ambos os músicos, que ainda hoje se mantém vivo.
