

É aí que o filme ganha corpo. Usando imagens que simulam vox populi, escutamos posições da sociedade face a esta nova pílula, dos que a entendem como forma de genocídio aos que a assinalam como forma de devolver as pessoas ao “normal”. Apesar da aparente neutralidade perante os depoimentos (todos eles de ficção, naturalmente), o filme toma evidente partido. Através das reacções dos amigos, de fracassados casos com mulheres que entretanto ganham forma e da constatação, afinal, que essa não era, nem pode ser, a solução, John Baumgartner usa Hard Pill como parábola contra a eventuais tentativas de “normalização” do que há de mais vivo em cada ser humano: a sua personalidade, as suas opções. No fundo, a sua identidade.
Narrativamente interessante, mostrando o realizador sabendo usar uma montagem em paralelo para alargar a nossa capacidade de observar o mundo em redor do protagonista, Hard Pill não se afasta contudo dos códigos habituais no telefilme, talvez assim assegurando a solidez final de uma boa ideia com orçamento que se adivinha longe de patamares de sonho. Apesar da intensidade emocional de alguns momentos vividos na história e, sobretudo, do sério debate que o filme levanta, Hard Pill recorre a pontuais dispositivos de humor, servindo ocasionais janelas de comic relief... Sobretudo na mordaz forma como acaba por criticar-se semelhante ideia de duvidosa farmacologia. – N.G.