
Foi um filme de fim de curso na Academy Of Media Arts em Colónia, que é uma escola de cinema muito especial na Alemanha, muito diferente das mais tradicionais. Trabalhamos em media arts, media design e cinema. Pelo que tive a liberdade total para fazer o que entendesse. Ninguém me disse sobre o que deveria falar o filme, não me foi imposta uma duração específica ou sobre como o deveria construir.
O que inspirou esta história?
A ideia não apareceu de um dia para o outro, num momento em específico. É um assunto que me acompanha há alguns anos. Depois de terminada a escola fui objector de consciência e prestei serviço num lar de idosos. Foi a primeira vez que fui confrontado com a morte e com a consciência de que, também eu, morrerei e que o ambiente à minha volta irá mudar. Tinha curiosidade também sobre saber o que é ser mais velho que eu. Essas eram as questões. Tentei aproximar-me de personagens mais velhos e maduros que eu, o que é uma abordagem talvez difícil, porque nem eu me imagino com 28 ou 30 anos, muito mais com 70... Tenho um amigo com 80 anos, que me acompanhou durante o tempo de escola. E com ele vi como mudam as coisas à nossa volta. Mas amar e ser amado não muda. Isso inspirou-me e definiu a base de toda a história.
Não se costuma ver personagens idosas no cinema queer...
Não apenas no cinema queer... E não é essa a única coisa que está ausente do cinema queer. O cinema de autor falta ostensivamente na cinematografia gay. Não sei porquê.
É um tabu retratar o desejo nos mais velhos?
Sim, é verdade. Mas creio que todas as respostas que tentasse agora dar seriam um lugar comum.
Por isso fez o filme? Para tentar evitar os lugares comuns?
Não. Mas não é um lugar comum, porque nos esforçámos por concentrar esforços em mais que apenas um assunto gay. Concentrámo-nos na criação do retrato de um velho.
O cinema fala muito de morte, mas poucas vezes por velhice...
Talvez porque seja pouco espectacular... Mas é a realidade. E isso não acontece apenas no cinema gay. As pessoas não encaram o seu futuro... A morte não faz parte da nossa consciência, daí os retratos de acidentes, assassínios, as coincidências.
A música acentua o ritmo lento do filme. Como a escolheu?
Foi uma entre as muitas coincidências deste filme, tal como o foram a escolha dos actores ou o ter encontrado a equipa certa. Aconteceu... Estava num café, depois de um dia de rodagem, e estava a pensar em qualquer outra coisa. No café estava a passar um CD que ouvi, e senti que essa deveria ser a música do filme.
O filme tem recebido prémios. Tem pensado no seu futuro como realizador?
Tenho, sim. O primeiro convite que tive para um festival foi em Locarno e isso mudou tudo. Antes não tinha a mesma auto-confiança... Não sabia bem o que ia fazer, porque fazer cinema pode não dar dinheiro... Mas a minha vida mudou depois desse festival. Já estivemos com o filme em 40 festivais, criámos um press release, temos produtores a querer trabalhar connosco, recebo argumentos...
O filme vai ter lançamento comercial?
Sim, estreia na Alemanha a 25 de Outubro. Depois haverá um DVD. E uma companhia francesa vai tentar vende-lo internacionalmente. O que sei que será difícil...