Thursday, May 22, 2008

Sinais de mudança na América de 80

Realizado em 1982 por Arthur Hiller, Making Love é um filme marcante na história da relação do cinema com o universo da cultura queer dado que representou o primeiro drama de produção maisntream por um grande estúdio norte-americano a representar personagens homossexuais sem o recurso aos estereótipos até então quase sempre presentes.
Em traços largos, Making Love retrata um coming out tardio por um jovem médico, casado e até então com sinais públicos de futuro aparentemente feliz ao lado da sua mulher, a única que consigo partilha um raro gosto por musicais da dupla Gilbert & Sullivan. Zack Eliott (Michael Onktean) é o jovem médico de Los Angeles que, até então, esconde aos outros (e até mesmo a si) um desejo que continua a guardar no armário. O encontro com um escritor (Harry Hamlin) leva-o a enfrentar de uma vez por todas os seus receios, decidindo inclusivamente romper o casamento com Claire (interpretada por Kate Jackson). Decisão que mantém firme, mesmo depois de confrontado com o facto do escritor, que motivou toda esta revolução, lhe revelar que não deseja manter o relacionamento entre ambos. O mais interessante de um filme, cinematográfica e narrativamente convencional, revela-se na forma como oferece, sem veicular leituras morais, duas visões distintas de modos de vida gay, o jovem médico em busca de um relacionamento fixo e longo, o escritor procurando antes encontros ocasionais.
Making Love, por enquanto, está apenas disponível em DVD num lançamento norte-americano (zona 1) de 2006, no catálogo da 20th Century Fox.

Saturday, May 3, 2008

The Bubble em DVD no Reino Unido

Foi editado esta semana, no mercado britânico, o DVD com o filme The Bubble, do realizador israelita Eytan Fox. O filme, que integrou a secção competitiva de longas-metragens do Queer Lisboa 11, em 2007, relata a história de um amor dividido pela política e pela religião, entre um antigo soldado irsaelita e um palestiniano. Entre os filmes que figuraram nesta mesma secção de longas metragens do Queer Lisboa 11, o próximo a ter lançamento em DVD no Reino Unido será Keillers Park. Recentemente foi editado Tick Tock Lullaby, de Lisa Gornick. Para breve, nos EUA, sairá em DVD o filme Itty Bitty Titty Comitee, de Jamie Babbit. Por enquanto não há indicação sobre a eventual edição nacional de qualquer destes filmes.

Thursday, May 1, 2008

Queer Lisboa 12: primeiras notas

O Queer Lisboa vai contar com a sua 12ª edição, oportunidade para assistir à mais recente produção cinematográfica gay, lésbica e queer. O Festival conta com três secções competitivas: Prémios de Longa-Metragem (melhor filme, melhor actor e melhor actriz), Documentário e Curta-Metragem. Nas secções paralelas, destaque para um ciclo sobre religião e sexualidade, e um outro sobre obscenidade. A par da secção Queer Pop (dedicada às expressões queer na música), novidade da presente edição é uma nova secção denominada Queer Art. O Festival contará com um júri internacional e um expressivo elenco de convidados nacionais e internacionais.

Monday, April 28, 2008

Cinema português em Turim

O cinema português marcou presença forte na edição deste ano do Festival de Cinema GLBT de Turim, que decorreu entre os dias 17 e 25 deste mês. Dois filmes estiveram em competição. Foram eles A Outra Margem, de Luis Filipe Rocha (na secção de Longas Metragens de Ficção) e Fora da Lei, de Leonor Areal (na secção de Documentários), este último tendo integrado a programação do Queer Lisboa 11, em 2007. O cinema queer português teve por sua conta uma secção própria, não competitiva, com o título Europa Mon Amour: Fantasmas do Amor. Em destaque nesta secção estiveram O Charme Indiscreto de Epifânea Sacadura (1975), Solidão Povoada (1976), Aventuras e Desventuras de Julieta Pipi (1978) e Good-Bye Chicago (1978), filmes de Óscar Alves, resultado de uma parceria com o Queer Lisboa. O realizador Óscar Alves esteve presente em Turim para apresentar estes quatro filmes, juntamente com os actores Fernando Silva e Domingos Oliveira. Esta mostra de cinema português incluiu ainda os filmes de Joaquim Pinto Uma Pedra no Bolso (1988) e Onde Bate o Sol (1989) e as duas longas metragens de João Pedro Rodrigues O Fantasma (2000) e Odete (2005). Este último esteve também presente em Turim, não só para apresentar os filmes, como também enquanto membro do júri da secção de Longas Metragens de Ficção. João Ferreira, director do Queer Lisboa integrou, por sua vez, o júri da secção de Documentários.

Sunday, April 27, 2008

La león vence em Turim

A 23ª edição do Festival de Cinema Gay e Lésbico de Turim levou, durante nove dias, uma verdadeira enchente de público ao Cinema Ambrosio, um multiplex de três salas no centro da cidade. Na hora da despedida de uma edição que contou com destacada presença do cinema português, aqui fica o extenso palmarés:

Melhor Longa MetragemLa León, de Santiago Otheguy (Argentina/França, 2006)

Prémio especial do JúriNothing Else Matters, de Julia Von Heinz (Alemanha, 2007) e Les Chansons d’Amour, de Christophe Honoré (França, 2007)

Melhor DocumentárioA Jihad For Love, de Parvez Sharma (USA, França, Reino Unido, Alemanha, Austrália, 2007)
Menção EspecialDarling! The Pieter Dirk Uys Story, de Julian Shaw (Austrália, 2007) e The Quest For The Missing Piece, de Oded Lotan (Israel, 2007)

Melhor Curta MetragemAlguma Coisa Assim, de Esmir Filho (Brasil, 2007)
Menção EspecialEin Litel Tiger, de Anna-Carin Anderson (Suécia, 2006)

Prémio Nouvi SguardiPanorama, de Loo Hui Phang (França, 2007) e Solos, de Kan Lume e Loo Zihan (Singapura, 2007)
Menção Especial – Love and Words, de Sylvie Ballyot (França, 2007)

Prémios do Público:
Longa Metragem
Were The World Mine, de Tod Gustafson (USA, 2007)
Documentário - Darling! The Pieter Dirk Uys Story, de Julian Shaw (Austrália, 2007)
Curta MetragemCafé com Leite, de Daniel Ribeiro (Brasil, 2007)

Saturday, April 5, 2008

A Outra Margem no Festival de Turim

O filme A Outra Margem, de Luis Filipe Rocha, integra a secção de competição de longas metragens de ficção na 23ª edição do Festival de Cinema Gay e Lésbico de Turim, que decorre entre os dias 17 e 25 de Abril. O programa oficial do festival inclui ainda uma mostra de cinema português, em colaboração com o Queer Lisboa. Haverá dois portugueses no júri de Turim: o realizador João Pedro Rodrigues (nas longas metragens de ficção) e João Ferreira, director do Queer Lisboa (nos documentários).

Tuesday, April 1, 2008

The Living End de Gregg Araki
chega pela primeira vez ao DVD

O filme The Living End, de 1992, um "clássico" de Gregg Araki e referência primordial na definição do chamado new queer cinema, vai pela primeira vez ter edição global em DVD. Apresentado agora com o sub-título Reximed and Remastered, o filme não é mais que o que se viu na época da sua estreia (inclusivamente em edição em VHS), com som e cor ligeiramente tratados, digitalizados portanto, não perdendo contudo a sua identidade lo-fi e filiação claramente indie. Esta versão "nova" de The Living End foi recentemente exibida em sala na edição deste ano da Berlinale. Os EUA são, agora, o primeiro país a anunciar a edição em DVD, agendada para 29 de Abril.

Sunday, March 30, 2008

Todd Haynes de regresso aos ecrãs

Acaba de estrear entre nós o filme Não Estou Aí (I'm Not There no original), o mais recente de Todd Haynes, um dos cineastas fulcrais na definição do conceito de new queer cinema nos inícios da década de 90. Conjunto de visões em volta das múltiplas personalidades e fases (criativas e vivenciais) de Bob Dylan, usando para tal actores entre os quais Cate Blanchett, Heath Ledger ou Christian Bale, Não Estou Aí recorda formalmente um dispositivo narrativo, fragmentado, que o mesmo Todd Haynes usou na sua primeira longa-metragem, Veneno (de 1991), filme que B. Ruby Rich tomou como um dos marcos para a identificação do que então designou por new queer cinema em histórico artigo publicado na Sight & Sound, em Setembro de 1992.

Thursday, March 27, 2008

Spider Lillies sai em DVD

O filme que venceu a edição de 2007 do Teddy Award, em Berlim, começa agora a ter distribuição em vários territórios europeus. Spider Lillies, um drama lésbico com origem em Taiwan, é o segundo filme de longa metragem de ficção de Zero Chou, com carreira essencialmente feita até aqui no cinema documental. Com marcas de contemporaneidade da era da comunicação virtual, plasticamente consistente, o filme marcou presença nos festivais de cinema gay e lésbico no ano passado. Spider Lillies terá edição em DVD no mercado britânico com o filme na sua versão original, com legendas em inglês, a 6 de Maio. O lançamento é assegurado pela Wolfe Video.

Sunday, March 23, 2008

Em Paris...

Chega esta semana ao mercado nacional de DVD o filme As Canções de Amor, do realizador Christophe Honoré (o mesmo de Em Paris e A Minha Mãe). É um musical. Mas não apenas um musical. É um filme dramático, no qual o recurso à canção não surge por mero dispositivo de deleite estético, mas para, de outra forma, sublinhar a intensidade de certos instantes. A voz cantada, por vezes, escuta-se com outra atenção... Atenção que não faltou aos espectadores em sala, nem aos pares de Honoré no cinema francês, tanto que o filme venceu o César deste ano para Melhor Banda Sonora. Nota portanto para uma das características da edição em DVD de As Canções de Amor que, além da galeria de extras (entrevista em Lisboa com Garrel e Honoré e imagens de um jantar com o realizador e elenco) apresenta um CD adicional com a banda sonora.

As canções que escutamos neste filme, muitas delas, surgiram em 2005 no álbum Garçon d’Honeur, o primeiro de músico francês Alex Beaupain, cantautor de afinidades com nomes recentes da nova canção (pop) francesa de travo alternativo e algumas traduziam já então o sentido de perda da morte, recente, da namorada do músico. Amigo de longa data de Honoré, e para quem compôs e gravou a canção da marcante cena do telefonema no final de Dans Paris, Beaupain transportou parte da sua experiência pessoal e as suas canções para a história que aqui se apresenta, ao lote de Garçon d’Honeur juntando outras expressamente compostas para determinadas sequências do filme. Com carga narrativa e cantadas pelas vozes dos próprios actores (Louis Garrel, Chiara Mastroiani, Ludivine Sagnier ou Gregoire LePrince Ringuet), as canções são, contudo, apenas um dos argumentos em favor deste assombroso feito de cinema. Como no seu filme anterior, Honoré olha a cidade, usa-a não apenas como cenário mas também como contexto de espaço e tempo onde a história acontece. São evidentes as marcas de admiração cinéfila pelo cinema de Demy, e também claras as heranças da Nouvelle Vague. Mas, filme a filme, Christophe Honoré vai desenvolvendo uma linguagem.Por linhas curtas, esta é a história de várias relações na Paris de hoje. Isamaël (Garrel) trabalha num jornal, a horas desencontradas com tudo e todos, inclusivamente Julie (Sagnier) com quem vive uma relação a três, o terceiro elemento sendo uma sua amiga e colega de trabalho... Um acontecimento súbito baralha os peões do jogo. E novas ligações e relacionamentos acabam por se desenhar e evoluir, muitos ao sabor do inesperado... Uma perda, um novo amor, uma outra sexualidade. Entre canções, histórias de figuras de carne e osso, seguras na sua caracterização, fortes ingredientes para um dos melhores melodramas dos últimos anos. – N.G.